FURACÃO 2000

por Marcelo Garcez Hoerner

A torcida rubro-negra aguardava com ansiedade o início do ano 2000. Além de data especial por ser o último ano do século, representava o começo de uma carreira internacional na história do clube, que nos últimos anos vem caminhando à passos largos rumo ao estrelato. O Atlético Paranaense era um dos representantes do temido futebol brasileiro na competição mais tradicional do continente sul-americano, a Taça Libertadores da América. Credencial esta obtida com muito sacrifício, após por detalhes deixar escapar a classificação entre os oito melhores times do Campeonato Brasileiro - ficou em nono lugar - venceu a seletiva de forma brilhante, eliminando com facilidade os medianos Portuguesa e Coritiba, mas depois batendo nos fortes São Paulo e Cruzeiro.
A competição então teve o seu início e em apenas algumas partidas o time da baixada foi reverenciado nacional e internacionalmente como "Furacão das Américas". A base dos jogadores mantida pela diretoria empolgou dentro das quatro linhas. Os garotos Lucas e Adriano, convocados por Luxemburgo para a Seleção Pré-Olímpica, formando o quadrado mágico com Kelly e Kléber encantaram os sul-americanos com suas jogadas rápidas e dribles desconcertantes. Em oito partidas disputadas, o rubro-negro obteve 6 vitórias, 1 empate e 1 derrota. Foi eliminado nas penalidades, após vencer o Atlético Mineiro no tempo normal. Já na Copa do Brasil, quartas-de-final, outro mineiro, o Cruzeiro, eliminaria o rubro-negro com um empate em Curitiba em noite de show de Oséas, ex-artilheiro da Baixada. A "síndrome mineira" comprovou-se, pois no início do ano o Furacão havia perdido também nas penalidades para o América-MG, na semi-final da Copa Sul-Minas.
Fatalidades à parte, após encerrar a sua participação na Libertadores e deixar claro que veio para ficar entre os grandes, o Atlético voltou ao cenário estadual para continuar a disputa do Campeonato Paranaense. Um time "B" conhecido por "Ventania" - alusão feita ao apelido do time principal - formado por jogadores reservas e juniores já vinha representando e muito bem, o Atlético na competição. Na fase final então, o verdadeiro furacão assumiu e sem nenhuma dificuldade chegou à final da competição, passando por cima duas vezes do Paraná: 3x0 e 3x1.
A final então seria contra o Coritiba, que vinha crescendo na competição. A primeira partida foi no Couto Pereira e era lá que eles precisavam fazer a diferença. Tentaram no início do jogo, mas faltavam recursos. Arriscaram até a fazer gols com as mãos, mas não ludibriaram o árbitro. Mas era inevitável, a superioridade técnica dos jogadores rubro-negros era muito grande, e no começo do segundo tempo, em grande jogada individual, após aplicar uma "meia-lua" no zagueiro, Adriano "Gabiru" tocou fácil na saída de Gilberto: 1x0 Atlético. A vantagem durou apenas alguns minutos quando Cléber, após um chute errado do lateral coxa dominou de frente para o gol rubro-negro, Reginaldo então tentou cortar e encostou no pé do atacante que, mesmo sem necessidade aproveitou a chance e atirou-se: penalti questionável, mas marcado em cima do lance. O mesmo Cléber enfiou o pé no meio do gol e decretou o resultado final de 1x1.
Partida final. Palco: Arena da Baixada, um dos mais modernos e bonitos estádios da América Latina. O Clube Atlético Paranaense, por todos cantado como favorito disparado ao título, precisava apenas de um empate para fechar o último capítulo dessa história com justiça. Melhor campanha disparada, mesmo com o time reserva disputando 80% do campeonato. No entanto, o "Top de linha do futebol do Paraná" precisava de um título para consolidar a fama. Do Coritiba ninguém cobrava nada, apenas os seus torcedores alimentavam lá no fundo uma esperança de tornarem-se campeões dentro da Arena do favorito Atlético. É, seria demais, e afinal de contas, futebol é futebol, tudo pode acontecer.
Em nove decisões disputadas em Atlé-tibas na história dos campeonatos paranaenses, o Atlético obteve cinco vitórias, sendo duas delas dentro dos domínios alvi-verdes. Nas outras quatro o Coritiba levou a vantagem, porém nunca na Arena da Baixada.
A décima decisão começou quente, em um sábado tipicamente curitibano. O dia amanheceu chuvoso, com uma garoa fina que parecia não querer colaborar com a partida final. Na cidade, logo cedo ouviam-se buzinas e bandeiras rubro-negras que começavam a querer colorir o cinzento dia. O título estava próximo, mas afinal precisava ser confirmado.
A torcida atleticana lotou os 90% da Arena, espaço que lhes era destinado, enquanto os coxas deixaram alguns espaços vazios no pedaço obrigatório que lhes foi cedido. Pareciam intrusos em uma festa que não lhes pertencia.
Nas arquibancadas a euforia era contagiante e ensurdecedora. Horas antes do início da partida a torcida já gritava como se a partida houvesse começado. Dezenas de caixões alvi-verdes foram confeccionados pela torcida atleticana e circulavam entre os mais fanáticos, tamanha era a confiança no título. Dizem que cantar vitória antes do tempo não traz sorte, mas essa não foi a verdade.
O jogo iniciou truncado e disputado, com muitos lances violentos logo coibidos pelo excelente Oscar Roberto de Godói. Os coritibanos jogavam com muita determinação, como se fosse a partida de suas vidas, mas logo a técnica atleticana equilibrava as ações. Jogo equilibrado que terminou empatado em seu primeiro tempo. Porém logo no início da segunda etapa, após um cruzamento mal cortado pelo zagueiro Gustavo, o meia Leandro Tavares arrematou forte de canhota, a bola desviou na zaga e morreu no fundo da rede da Flávio. O improvável estava acontecendo. A pequena torcida coxa-branca chegou a ensaiar a comemoração de um título, que até então parecia impossível.
E era. Os fiéis guerrilheiros da arquibancada bradaram sem parar o hino mais bonito do Brasil - "a tradição, vigor sem jaça, nos legou o sangue forte, rubro-negro é quem tem raça, e não teme a própria morte!" - enchendo de brios os jogadores atleticanos, que vestindo como nunca a camisa rubro-negra por amor, buscavam incessantemente o empate que lhes devolveria a glória maior da conquista.
E foi assim, nesse clima de muita emoção que milhares de rostos apreensivos, sorridentes, nervosos e chorosos viram após o cruzamento de escanteio de Luizinho, o menino Gustavo subir por trás da defesa coritibana, e escorar de cabeça rumo à meta de Gilberto, a bola ainda resvalou no corpo do zagueiro coxa e foi vagarosamente cumprindo o seu papel, entrando aos poucos e arrancando gritos enlouquecidos de milhares de rubro-negros: é gol do Atlético!
O próprio Gustavo perdeu a linha, tirou a camisa e quase pulou o fosso para comemorar com a torcida o empate que todos sabiam, daria o título merecido ao Atlético. Que outra solução: expulso pela exagerada comemoração. As equipes então igualaram-se numericamente, já que o zagueiro Flávio do coritiba havia agredido covardemente com um soco o meia Adriano.
Alguns minutos mais tarde e fim de jogo. Início de uma festa que começou em 1924, quando tudo começou, mas fortaleceu-se em 1995, com a revolução rubro-negra comandada po Mario Celso Petráglia e que parece não ter mais fim. Deu novos rumos ao Atlético e um novo orgulho que nunca deixou de existir, mas estava adormecido no coração de todos os rubro-negros.
Ser atleticano já é por si só uma condição privilegiada de sentir o coração bater mais forte e o sangue correr quente nas veias.
Somos Campeões de 2000! Campeões do século. Eternos Campeões.

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